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O CENTENÁRIO BESSARABIANO E A TRAGÉDIA DA ILHA DOS PORCOS

Por Eduardo Rascov - jornalista, escritor, editor e pesquisador

Já ouviu falar da Bessarábia, uma região esquecida do leste europeu? Não! Então, senta que lá vem história. Antes preciso dizer que há filhos e netos de bessarabianos à nossa volta, em São Caetano do Sul, nas outras cidades do ABCD, no interior de São Paulo, na capital, no Paraná, no Mato Grosso do Sul, nas demais regiões do Brasil, bem como no Uruguai e na Argentina, entre outros países da América Latina. Os bessarabianos estão em toda parte, mas quase ninguém sabe disso. Esta matéria tenta explicar o porquê disso.

Os primeiros imigrantes bessarabianos chegaram ao Brasil há exatos 100 anos, no final de 1925. Eram jovens adultos, já casados e com filhos pequenos, que se aventuraram a explorar os confins desta “terra onde se frita ovo direto no chão, de tão quente que é,” chamada Brasil. A maioria deles havia nascido sob o império russo, falava russo correntemente, era de religião ortodoxa e adorava o czar. Em casa, porém, usavam a língua de seus ancestrais – o búlgaro.

No “passaporte interno” constava que eram súditos do império russo, mas de nacionalidade búlgara. Ou seja, possuíam todos os direitos e deveres do súdito russo, mas eram considerados búlgaros. Isso porque na Rússia vale o jus sanguinis (direito de sangue), ou seja, em termos genéticos, “filho de peixe, peixinho é”. Basta ter pai ou mãe de determinada nacionalidade para continuar sendo dela, não importa onde se nasça (não confundir com o sistema matrilinear judeu, definido pela mãe) Esse princípio é adotado até hoje por muitos países europeus, além da Rússia, como Portugal, Itália, Ucrânia etc. No Brasil adotamos o jus solis (direito de solo): basta nascer em solo brasileiro para ser considerado de nacionalidade brasileira. Simples assim. Faz sentido se pensarmos que este é um território habitado por indígenas de inúmeras nações originalmente que recebeu camadas de colonizadores europeus, africanos escravizados e imigrantes brancos e amarelos.

Mas esses bessarabianos que vieram ao Brasil em 1925/1926 eram russos ou búlgaros, afinal? Boa pergunta. Para complicar, eles  chegaram em nosso país com passaporte romeno! Vai entender. Calma, estou explicando… Antes de mais nada, é preciso saber que a Bessarábia é uma faixa de terra muito fértil que hoje encontra-se dividida entre a Ucrânia e a Moldávia. Mas no século XVIII era uma região de disputa entre os impérios russo e turco. Sob a déspota esclarecida Catarina II, a Grande, a Rússia logrou vencer uma das inúmeras guerras com a Turquia. Então boa parte dos tártaros que lá habitavam foram transferidos para a Sibéria e a raínha implantou na Bessarábia uma política de colonização. Os povos que lá chegassem receberiam terras e financiamento. Foi isso que atraiu búlgaros (fugindo dos turcos), gagaúzos e alemães, entre outros povos, por volta de 1780. Os bessarabianos que resolveram partir para o Brasil na terceira década do século XX eram justamente descendentes daqueles primeiros búlgaros que nasceram sob o Império Russo, numa época que esses arranjos geopolíticos – os impérios – eram multinacionais, como o austro-hungaro, por exemplo.

Até o final de 1926 migraram para o Brasil levas de bessarabianos de origem búlgara, principalmente, mas não só; vieram também bessarabianos gagaúzos (uma etnia turcomana que abraçou o cristianismo), alemães e judeus (estes, posteriormente, a partir do final da década de 1920). Para entender o que  gagaúzes faziam na Bessarábia seria preciso pesquisar sobre o domínio turco daquela região, mas é melhor deixar esse período na poeira do tempo histórico.  É difícil estabelecer o número definitivo de bessarabianos de origem búlgara e gagaúza (em número bem menor) que se aventuraram em terras tropicais, mas calcula-se que foram cerca de 10 mil pessoas. Meus avós Marco Rascov e Maria Velchev entre eles.

Esses bessarabianos vieram com passaporte romeno porque a Romênia havia tomado manu militari a Bessarábia dos russos após a Revolução Socialista de 1917. Eles conseguiram fazer isso facilmente porque a então nascente União das Repúblicas Socialistas Soviéticas experimentava uma guerra fratricida terrível, algo parecido com o que acontece hoje na Ucrânia. Os migrantes bessarabianos justamente fugiram da perseguição romena, que começava a fazer uma limpeza étnica naquelas terras férteis. Minha babá (avó), por exemplo, me disse que tinha 9 anos de idade quando um gendarme romeno a interceptou numa ponte, na ida à escola, e,  com estardalhaço, jogou no rio os livros em russo que ela portava.

Os imigrantes bessarabianos de origem búlgara e gagaúzes, portanto, chegaram ao Brasil em 1925 e 1926 com passaporte romeno. Embora no documento constasse a nacionalidade “búlgara” ou “gagaúza”, eles eram registrados pelos funcionários da alfândega brasileira como “romenos”. Todos falavam russo e búlgaro, e alguns ainda o gagauz (língua de origem turca). Para os brasileiros, diante daquele povo de língua estranha, era mais fácil chamá-los de russos e assim eles foram se integrando à sociedade brasileira.

Não foi uma integração fácil. Os imigrantes chegavam de navio e vinham de trem até a hospedaria do imigrante, no Brás. Lá faziam os procedimentos burocráticos e sanitários até os fazendeiros chegarem e os levarem ao trabalho na lavoura. Em abril de 1926 cerca de 4 mil bessarabianos esperavam na hospedaria para serem enviados às fazendas e começarem a cumprir os contratos de trabalho, quando chegou do interior um bessarabiano desgarrado. Ele havia imigrado ao Brasil um pouco antes e percebido que o prometido era mentira. Foram enganados. Nada de terra, casa, equipamentos, ferramentas e créditos. O que eles iriam fazer é substituir os escravos!

Foi uma revolta! Foi uma revolução! Os bessarabianos se recusaram a seguir até as fazendas. Queriam esclarecimento. Queriam voltar para suas terras na Europa. O estado de São Paulo, que havia enfrentado a revolta tenentista nos anos anteriores, reagiu de modo brusco. Forçou aqueles 4 mil bessarabianos a entrarem num trem e os levou ao porto de Santos. De lá, embarcou-os para a Ilha dos Porcos, próximo de Ubatuba, onde havia as instalações de um presídio desativado. Quer dizer, foram presos, sequestrados pelo estado e mantidos sob cativeiro num lugar inóspito.

Os bessarabianos não entendiam o que estava acontecendo. Como a comida era rara, resolveram fazer um panelão com papinha de mandioca, raíz  comum na hoje chamada Ilha Anchieta. Era mandioca selvagem, imprópria para alimentação a menos que se conheça a técnica indígena de purificação do veneno.  O resultado foi o envenenamento coletivo dos bessarabianos. As mortes começaram em 18 de abril de 1926. Nos próximos dias, faleceriam 151 pessoas, sendo 146 crianças pequenas. Uma tragédia provocada pelo estado, que cuidadosamente apagou as evidências nos anos seguintes. Chegou a ser publicado nos jornais que os bessarabianos haviam voltado para a Europa. A história verdadeira só ficou conhecida graças ao trabalho pioneiro de Jorge Cocicov, um juiz de direito filho de bessarabianos que descobriu o atestado de óbito de todas essas vítimas e o cemitério clandestino em que elas foram enterradas.

É por conta dessa tragédia que o centenário da imigraçao búlgara e gagaúza ao Brasil será comemorada em dois lugares: na Ilha Anchieta (em data a ser marcada) e no Museu da Imigração (antiga Hospedaria dos Imigrantes), em São Paulo, capital, no dia 25 de abril, um sábado, a partir das 14 horas. Será uma oportunidade para celebrar a façanha daqueles bessarabianos e para honrar as vidas perdidas na tragédia da ilha dos Porcos.

E uma oportunidade para todos conhecerem e refletirem sobre a “questão búlgara”, digamos assim. Os descendentes dos bessarabianos cultivam até hoje uma necessidade tocante de encontrar a “raiz da raiz”. É como se não bastasse pesquisar, conhecer e interagir com a Bessarábia, seria preciso e urgente se relacionar com o país do qual os antepassados dos seus ancestrais saíram pelo menos 100 anos antes dos primeiros búlgaros bessarabianos chegarem no Brasil, em 1925/26.

Da minha parte, gosto de pensar que meus ancestrais paternos vieram da Bessarábia, uma região que à época em que minha baba e meu Diado nasceram (1908 e 1906) pertencia ao império russo e era um caldeirão cultural de povos distintos que se relacionavam entre si (búlgaros, gregos, romenos, russos, alemães, judeus, gregos, gagaúzos, turcos, tártaros, ucranianos etc). A realidade mudou, como é comum na história, mas até hoje, quando entro em contato com um bessarabiano raiz, vejo nele meus avós e meu pai. E a identificação é imediata.

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