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Um acordo comercial com muitas arestas

Editorial

O acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul, negociado por mais de duas décadas e anunciado politicamente em 2019, continua sem ratificação devido a uma combinação de fatores econômicos, ambientais, políticos e sociais que geram forte resistência dentro do bloco europeu. Embora o acordo prometa ampliar o comércio entre duas das maiores regiões econômicas do mundo, seus custos potenciais são vistos por muitos países europeus como elevados demais.

Um dos principais entraves é a questão ambiental, especialmente relacionada ao desmatamento na Amazônia. Governos europeus, parlamentos nacionais e a opinião pública demonstram preocupação com o impacto que o aumento das exportações agropecuárias do Mercosul poderia ter sobre florestas tropicais e povos indígenas. A política ambiental da UE tornou-se mais rigorosa nos últimos anos, com destaque para o Pacto Verde Europeu, o que levou países como França, Áustria e Irlanda a exigirem garantias ambientais mais duras e juridicamente vinculantes antes de aprovar o acordo.

Outro fator relevante é a proteção do setor agrícola europeu. Produtores rurais da UE temem a concorrência de produtos sul-americanos, como carne bovina, soja, açúcar e etanol, que possuem custos de produção mais baixos e padrões sanitários e ambientais percebidos como menos exigentes. Organizações agrícolas exercem forte pressão política, argumentando que o acordo criaria concorrência desleal e ameaçaria a sobrevivência de pequenos e médios agricultores europeus.

Há também divergências políticas internas na própria União Europeia. Para que o acordo entre em vigor, ele precisa ser ratificado por todos os Estados-membros e, em alguns casos, por parlamentos regionais. Isso torna o processo lento e vulnerável a vetos nacionais. Mudanças de governo, crescimento de partidos ambientalistas e nacionalistas e o uso do acordo como instrumento de política interna dificultam ainda mais o consenso.

Além disso, existem críticas relacionadas a direitos trabalhistas e sociais. Setores da sociedade civil europeia acusam o acordo de não oferecer mecanismos eficazes para garantir o cumprimento de padrões internacionais de trabalho e direitos humanos nos países do Mercosul. Essas preocupações reforçam a percepção de que o tratado prioriza interesses comerciais em detrimento de compromissos sociais e ambientais.

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