Os protestos no Irã têm se afirmado como um retrato eloquente do desgaste progressivo do regime político instaurado após a Revolução Islâmica de 1979. Embora o sistema teocrático ainda disponha de instrumentos eficazes de repressão e controle institucional, a recorrência e a intensidade das manifestações indicam que sua legitimidade social vem sendo corroída de forma constante. O que antes era sustentado por uma combinação de ideologia religiosa, nacionalismo e medo, hoje enfrenta uma sociedade mais crítica, plural e menos disposta a aceitar imposições autoritárias.
Diferentemente de protestos anteriores, motivados principalmente por crises econômicas, as mobilizações recentes incorporam uma dimensão simbólica e política mais profunda. Questões ligadas às liberdades individuais, especialmente aquelas que afetam as mulheres, tornaram-se centrais. A imposição de códigos de vestimenta e de conduta revela o grau de controle do Estado sobre a vida privada, transformando o cotidiano em um campo de disputa política. Ao desafiar essas normas, as mulheres expõem as contradições de um regime que se apresenta como moralmente legítimo, mas depende da coerção para manter a obediência.
A juventude iraniana também desempenha papel decisivo nesse processo de desgaste. Distante da memória da revolução que fundou o regime e amplamente conectada ao mundo por meio das redes sociais, essa geração demonstra crescente frustração com a censura, a falta de perspectivas econômicas e o isolamento internacional. A inflação elevada, o desemprego e a deterioração das condições de vida intensificam o sentimento de que o sistema político atual não responde às necessidades reais da população. Assim, o descontentamento econômico se soma à insatisfação política, ampliando o alcance dos protestos.
Apesar da força repressiva do Estado, cada onda de manifestações impõe um custo político crescente ao regime. A violência empregada para conter os protestos, longe de restaurar plenamente a autoridade, contribui para aprofundar o descrédito interno e a crítica internacional. O uso sistemático da força revela não a solidez, mas a fragilidade de um poder que já não consegue se sustentar apenas pelo consenso. Nesse sentido, a repressão funciona como um paliativo que adia, mas não resolve, as tensões estruturais.
Assim, os protestos no Irã devem ser compreendidos menos como eventos isolados e mais como sintomas de um desgaste profundo e contínuo. Ainda que o regime permaneça no poder, sua autoridade moral e política está sendo questionada de forma inédita. O futuro permanece incerto, mas é evidente que o modelo atual enfrenta limites cada vez mais visíveis para se manter intacto diante das transformações sociais em curso.

