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Novo calendário, novas chances de acerto

EDITORIAL

O futebol brasileiro inicia mais uma temporada sob o peso da mudança. O novo calendário, que antecipa o Campeonato Brasileiro e empurra os estaduais para o início do ano, promete racionalidade, organização e alinhamento com o futebol internacional. No papel, a ideia parece moderna. Na prática, porém, levanta uma série de dúvidas que ainda não encontram respostas claras, especialmente sobre como os clubes irão se adaptar a esse novo cenário.

A primeira questão é inevitável: qual será, afinal, a importância dos campeonatos estaduais? Historicamente tratados como termômetro inicial da temporada, eles agora correm o risco de se tornarem um laboratório improvisado. Com o Brasileirão começando mais cedo, é razoável imaginar que muitos clubes priorizem suas forças para a competição nacional, utilizando os estaduais como espaço para testes, rodízio de elenco e observação de jovens. Isso pode esvaziar tecnicamente torneios que, goste-se ou não, ainda carregam tradição, rivalidade e relevância regional.

Outro ponto sensível diz respeito ao planejamento esportivo. Reforços chegarão pensando em quê? No estadual, no Brasileiro ou nas competições continentais? A antecipação do calendário nacional exige contratações mais rápidas, elencos mais prontos e decisões mais certeiras logo em janeiro. Clubes que demorarem a agir podem comprometer toda a temporada em poucas semanas. A margem de erro diminui drasticamente quando o campeonato mais importante do país começa antes mesmo de o time estar totalmente estruturado.

Há também uma dúvida que incomoda dirigentes, torcedores e profissionais do futebol: os clubes estão realmente preparados para essa mudança? Adaptar-se não é apenas aceitar o novo calendário, mas repensar pré-temporadas, carga física, montagem de elenco e até o discurso público. Não basta dizer que o estadual perdeu importância; é preciso assumir isso de forma transparente ou, ao contrário, valorizá-lo com ações concretas. O que não parece mais viável é seguir no meio do caminho, tratando o estadual como obrigação incômoda e o Brasileiro como prioridade absoluta, sem um plano claro de convivência entre ambos.

O novo formato exige profissionalismo, planejamento e coragem para investir cedo, para priorizar competições de forma honesta e para lidar com possíveis fracassos iniciais sem recorrer às desculpas de sempre. Caso contrário, o futebol brasileiro corre o risco de apenas mudar as datas no calendário, mantendo os mesmos erros estruturais de sempre.

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