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Carnaval de salão, o fim de uma era

Ruídos Urbanos - Contos do Rick - @rickandroll

Sem ser nostálgico, admito ter saudades dos antigos carnavais de salão. Não apenas saudade, mas uma melancolia afetiva daquelas aguardadas festas, que atraíam multidões e elevavam a temperatura dos clubes e salões de dança. Uma fantasia para celebrar a vida com confetes e serpentinas. De dançar ao som das divertidas marchinhas carnavalescas, embaladas por bandas musicais que ironizavam com humor e malícia as calúnias políticas, as dores de amor e as precariedades sociais.

Vale lembrar que a chegada do carnaval de salão era aguardada pelos músicos das bandas, por crianças que lotavam as matinês e, principalmente, pelos foliões adultos, que desfilavam suas fantasias tropicais nos entusiasmados bailes que existiam no ABC, entre eles: Clube da GM, Cerâmica, Babaréu, Hipnoses, Teuto, Buso Palace, São Caetano E.C., 1º de Maio, Aramaçan, Panelinha, Clube de Campo do ABC e nos inúmeros clubes esportivos da região.

Desde Carmen Miranda, o carnaval do Brasil sempre foi reconhecido por suas marchinhas bem-humoradas. Entretanto, observo que algumas canções estão passando por um processo de revisão, e marchinhas clássicas que foram sucessos nas décadas de 1930 a 1970, como: Cabeleira do Zezé, Maria Sapatão e O Teu Cabelo Não Nega, estão sendo “canceladas” por conterem letras consideradas incorretas para os padrões éticos atuais.

Historicamente, obras carnavalescas de grandes compositores estão sendo atualizadas por bloquinhos de carnaval de rua, como Sargento Pimenta, Ritaleena e Tô de Bowie (São Paulo), Galo da Madruga (Recife) e Cordão da Bola Preta (Rio de Janeiro), que a cada ano se multiplicam, fundindo a energia da juventude à alegria dos antigos carnavais.

No entanto, a caravana do progresso passa impiedosa, atropelando tradições e encerrando capítulos gloriosos da nossa cultura. E o carnaval, que sempre foi a mais bonita festa popular do Brasil, a cada ano vem se transformando num circuito corporativo de interesses comerciais, seja pela indústria cultural da música baiana, pelas micaretas do axé, pelos paredões do funk e, principalmente, pelo luxuoso carnaval das escolas de samba do Rio de Janeiro, que exibem ao mundo uma visão distorcida da simplicidade do carnaval, com alegorias tecnológicas, atributos sedutores e fantasias de altíssimo custo. Bem distante da folia da realidade.

E se no Brasil as coisas só começam a funcionar depois do carnaval…

Feliz 2026!

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