O silêncio que ainda aprisiona mulheres no ABC
Nem toda violência deixa hematomas. Muitas não sangram, não geram boletim de ocorrência imediato e, por isso, seguem invisíveis. No ABC Paulista, região marcada por trabalho intenso, rotinas exaustivas e mulheres que sustentam lares inteiros, a violência psicológica, moral e patrimonial continua sendo uma das faces mais silenciosas da desigualdade de gênero.
Ela se manifesta no controle disfarçado de cuidado, na humilhação cotidiana, no isolamento de amigos e familiares, na vigilância constante e na dependência financeira imposta. São agressões que corroem a autoestima, adoecem emocionalmente e fazem com que muitas mulheres passem anos acreditando que o problema está nelas e não na relação abusiva em que vivem.
O mais perverso é que esse tipo de violência ainda é frequentemente minimizado. Frases como “não foi nada”, “ele só é ciumento” ou “poderia ser pior” funcionam como mecanismos sociais de silenciamento. A ausência de marcas físicas não significa ausência de dor. Pelo contrário: o impacto psicológico costuma ser profundo e duradouro.
A Lei Maria da Penha reconhece essas violências, mas o reconhecimento legal não basta quando falta informação, acolhimento e rede de apoio efetiva. Muitas mulheres não denunciam porque têm medo, dependem financeiramente do agressor ou sequer identificam que estão sendo violentadas.
Romper esse ciclo começa pela nomeação do problema. Violência não é normal, não é demonstração de amor e não é um assunto privado. Enquanto o silêncio persistir, ele seguirá protegendo o agressor nunca a vítima. Para orientação, registro de denúncias e encaminhamento à rede de proteção, o Disque 180 funciona 24 horas por dia, gratuitamente e de forma confidencial, em todo o país. Denunciar é um ato de coragem e proteção para si e para outras mulheres. O silêncio nunca é a melhor saída.
Priscilla Cardoso @priscillacardosooficial

