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O xadrez de Lula com o Conselho de Gaza

EDITORIAL

A decisão do presidente Lula de não responder prontamente a Donald Trump diante do convite ao chamado Conselho da Paz deve ser analisada menos como descaso e mais como cálculo político-diplomático. Em relações internacionais, o tempo da resposta também comunica. O silêncio inicial pode funcionar como instrumento estratégico, sobretudo quando o interlocutor é uma figura polarizadora, conhecida por usar gestos diplomáticos como extensão de sua política doméstica.

Lula construiu, ao longo de seus mandatos, a imagem de um líder que privilegia o multilateralismo, a previsibilidade institucional e o diálogo mediado por organismos reconhecidos. Trump, por outro lado, representa uma diplomacia personalista, marcada por anúncios abruptos e pouca valorização dos ritos tradicionais. Responder de forma imediata poderia significar validar esse estilo e deslocar o Brasil para um terreno de improviso que não lhe interessa. A cautela, nesse contexto, preserva coerência com a política externa brasileira e evita ruídos desnecessários.

Além disso, a relação entre Brasil e Estados Unidos é maior do que seus líderes circunstanciais. Trata-se de um vínculo histórico, sustentado por interesses econômicos, cooperação ambiental, diálogo militar e agendas regionais. Um gesto apressado poderia gerar ganhos simbólicos momentâneos, mas também riscos de desgaste com outros parceiros estratégicos ou mesmo com setores internos que defendem uma diplomacia menos alinhada a figuras específicas e mais ancorada em consensos internacionais.

A estabilidade diplomática, portanto, passa pela capacidade de filtrar convites, discursos e iniciativas à luz do interesse nacional. Ao não reagir de imediato, Lula sinaliza que o Brasil não atua por impulsos externos, mas por avaliações próprias. Isso não significa hostilidade aos Estados Unidos, tampouco fechamento ao diálogo, e sim reafirmação de autonomia. A mensagem implícita é clara: o Brasil está disposto a conversar, mas nos seus termos e dentro de fóruns legítimos.

Em tempos de instabilidade global, essa postura tende a fortalecer, e não fragilizar, a relação bilateral. A diplomacia madura não se mede pela rapidez das respostas, mas pela consistência das escolhas. Nesse sentido, a cautela de Lula pode ser lida como um esforço para manter equilíbrio, evitar espetacularização política e preservar a credibilidade internacional do Brasil.

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