Os números mais recentes de mortes no trânsito em São Paulo não são apenas estatísticas frias: são o retrato de uma tragédia cotidiana que insiste em se repetir. Em 2025, a capital paulista registrou 1.034 óbitos em acidentes viários, o maior índice desde 2015. Trata-se de uma marca inaceitável para a maior metrópole do país e um alerta que ecoa muito além de seus limites, refletindo a dura realidade do trânsito brasileiro como um todo.
Não é casualidade que São Paulo figure novamente entre os anos mais letais da última década. Os dados do Infosiga SP revelam um padrão claro e alarmante: motociclistas seguem como as maiores vítimas fatais, seguidos por pedestres. Jovens adultos, sobretudo homens entre 20 e 29 anos, compõem a maior parte das estatísticas. Os fins de semana, quando a imprudência se soma ao cansaço e ao consumo de álcool, concentram o maior número de mortes. Nada disso é novidade, e justamente aí reside o problema.
O Brasil parece ter se acostumado a conviver com a violência no trânsito como se fosse um preço inevitável da mobilidade urbana. Não é. Trata-se de uma combinação perigosa de fatores bem conhecidos: falta de educação no trânsito, fiscalização insuficiente ou mal aplicada, punições que não inibem comportamentos de risco e uma infraestrutura viária precária, espalhada por rodovias e cidades do país inteiro.
A análise do urbanista Flaminio Fichmann ajuda a compreender parte desse cenário. O aumento expressivo do uso de motocicletas desde a pandemia e a migração do transporte coletivo para o individual ampliaram a exposição ao risco. O transporte público, historicamente mais seguro, perdeu usuários, enquanto motos e automóveis passaram a disputar um espaço viário já saturado. O resultado é previsível: mais congestionamentos, mais acidentes, mais internações e mais mortes.
É verdade que o poder público municipal tem adotado medidas importantes, como redução de velocidades, implantação de faixas de pedestres, Áreas Calmas e rotas escolares seguras. Essas iniciativas devem ser reconhecidas, mas ainda são insuficientes diante da gravidade do problema. Políticas de segurança viária precisam ser contínuas, integradas e, sobretudo, acompanhadas de fiscalização rigorosa e campanhas educativas permanentes.
No entanto, nenhuma política será plenamente eficaz sem enfrentar a raiz da questão: a educação no trânsito. Falha-se há décadas nesse aspecto. Educação viária não pode ser episódica, restrita a campanhas pontuais ou ações reativas após tragédias.


