
O feminicídio deixou de ser apenas um problema criminal para se consolidar como uma crise pública estrutural. Quando mulheres são assassinadas de forma sistemática por serem mulheres, o que está em colapso não é só a segurança individual, mas o próprio pacto social. Cada morte anunciada, quase sempre precedida por denúncias ignoradas, medidas protetivas descumpridas e sinais claros de violência, revela a falência do Estado em proteger quem deveria estar no centro das políticas públicas.
Tratar o feminicídio como crise pública significa reconhecer que ele nasce da combinação perversa entre machismo estrutural, desigualdade social, racismo, negligência institucional e falta de investimento contínuo em prevenção. Não se combate essa violência apenas com leis no papel ou discursos em datas simbólicas. É preciso orçamento, monitoramento, responsabilização e uma rede integrada que funcione antes que a violência chegue ao ponto irreversível.
Enquanto o debate público insiste em tratar cada caso como tragédia isolada, mulheres seguem morrendo dentro de casa, no trabalho e na rua, muitas vezes após terem pedido ajuda. Enfrentar o feminicídio como crise pública é romper com a naturalização da morte feminina e assumir, como sociedade, que nenhuma democracia é legítima enquanto mulheres não conseguem simplesmente sobreviver.
Enfrentar o feminicídio é uma escolha política e moral. Enquanto for tratado como estatística ou tragédia isolada, mulheres continuarão morrendo. Leis sem recursos não salvam vidas. É indispensável financiamento contínuo para casas-abrigo, delegacias especializadas, equipes multidisciplinares e monitoramento de agressores. DENUNCIE. A denúncia salva vidas.

