Tecnologia e Sociedade
Hoje em dia, eu tenho quase certeza de que o celular não é mais um aparelho eletrônico. É um pequeno apocalipse portátil, sempre pronto para explodir na palma da minha mão. Porque, sinceramente, a notificação não é lembrete: é ameaça. Cada vibração é uma micro crise anunciada.
Às vezes eu penso que viver sem celular seria libertador, mas aí lembro que é por ele que eu peço comida, marco consulta, falo com os amigos, resolvo trabalho, pago boleto e fujo da realidade rolando o dedo pela tela. Ou seja: estou preso ao meu próprio sequestrador.
O problema é que a gente deixou de ter dias tranquilos. Antes, o máximo que poderia acontecer era alguém bater na porta. Hoje, a porta é virtual e abre sozinha. Chega mensagem de tudo quanto é lado: WhatsApp, Instagram, aplicativo do banco, alerta de saldo baixo (meu preferido), promoção do mercado, o cartão de crédito pedindo atenção, alguém te marcando numa coisa nada a ver, e aquele número desconhecido que sempre manda uma mensagem começando com “boa tarde, você poderia…”.
E se você não responde? Pronto. Nasce uma nova ansiedade. Porque a pessoa vê que você esteve online, mas você não viu. E você sabe que ela sabe que você esteve online, mas finge que não sabe. Um verdadeiro xadrez emocional. Foi por isso que tirei quase tudo: visto por último, confirmação de leitura, o raio do online. Não quero que o mundo ache que eu estou ignorando alguém; eu só estou cansado mesmo. E, depois do trabalho, eu não quero nem lembrar que sou alfabetizado.
No fim das contas, o celular virou esse mini apocalipse atrás de uma tela brilhante. Ele promete facilitar a vida, mas passa o dia testando minha paciência, minha saúde mental e a força do meu autocontrole.
Mesmo assim, eu continuo aqui, grudado nele, caindo nessa relação tóxica com a maior naturalidade do mundo. Porque, sinceramente, viver sem celular seria ótimo, se não fosse completamente impossível.
Enrico Pierro
@enricopierroofc


